A Assembleia Legislativa de Mato Grosso abriu espaço, nesta segunda-feira (15), para um debate sobre os efeitos da inteligência artificial na sociedade. O assunto entrou na pauta do Grupo de Trabalho que acompanha os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e tratou de impactos sociais, ambientais e econômicos da tecnologia.
A exposição foi feita pelo advogado, biólogo e mestrando em Política Social da UFMT, Luiz Felipe Goffi Portela. Ele afirmou que o discurso de modernização costuma esconder custos que recaem sobre a população, como o uso intenso de energia, água e infraestrutura para manter os sistemas em funcionamento.
Portela explicou que a chamada “nuvem” depende de data centers instalados em vários países, com forte demanda por recursos naturais. Segundo ele, esse consumo tem reflexo direto no ambiente e levanta dúvidas sobre os ganhos concretos para as comunidades onde essas estruturas são instaladas.
O especialista também chamou atenção para o mercado de trabalho. De acordo com ele, a inteligência artificial é alimentada por pessoas que executam tarefas repetitivas, muitas vezes mal remuneradas e sem retorno de qualificação profissional, inclusive em países em desenvolvimento.
Na parte social, o debate se concentrou nos vieses dos algoritmos. Portela alertou que os sistemas aprendem com dados produzidos pela própria sociedade e, por isso, podem reproduzir desigualdades, estereótipos e preconceitos já existentes.
Ele citou pesquisas internacionais sobre reconhecimento facial, com falhas mais graves na identificação de pessoas negras, especialmente mulheres negras. Também mencionou casos registrados no Brasil em que cidadãos foram abordados ou detidos de forma injusta após erros em sistemas automatizados.
Para o pesquisador, o uso crescente da tecnologia exige regras mais claras, auditorias independentes e transparência sobre como os algoritmos funcionam. Ele defendeu que o poder público acompanhe de perto sistemas usados em segurança, reconhecimento facial e prestação de serviços.
A relatora do GT, Clara Vaz, reforçou que o tema precisa ser observado sob a ótica da sustentabilidade e da redução de danos. Já o presidente do grupo, André Luis Rufino, afirmou que as sugestões apresentadas podem subsidiar futuras propostas legislativas na ALMT.
Reportagem produzida pelo Bastidor MT com base em informações publicamente divulgadas pela fonte original.
A discussão na ALMT mostra que a inteligência artificial já deixou de ser tema apenas de tecnologia e passou a exigir resposta regulatória. Quando sistemas automatizados entram em serviços públicos, os erros podem afetar direitos básicos e gerar prejuízo direto ao cidadão. No plano econômico, o aumento do consumo de energia e água também pressiona custos que, em algum momento, chegam à conta da sociedade. O desafio é criar regras antes que a adoção da tecnologia avance mais rápido que a capacidade de fiscalização.

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