A carta de despedida do servidor da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT) Cleston Celestino Batista não traz indicação de crise interna, denúncia ou problema na pasta. O conteúdo, analisado pela perícia, registra justamente o contrário: ele diz viver um bom ambiente de trabalho e destaca os colegas.
O caso ganhou peso político depois que o deputado estadual Wilson Santos (PSD), presidente da CPI da Saúde, mencionou a morte do servidor ao comentar informações recebidas pela comissão sobre um suposto ataque hacker aos sistemas da secretaria. A CPI apura atos na SES entre 2019 e 2023, com foco nos contratos firmados na pandemia.
Em entrevista à TV Vila Real, o parlamentar afirmou que chegou à comissão uma informação anônima de que o responsável pela TI da Secretaria de Saúde teria se suicidado por volta de março, no mesmo período dos fatos investigados. A versão, porém, não encontra respaldo na carta deixada por Cleston.
Segundo o laudo da Politec, a morte foi causada por intoxicação. Os peritos concluíram que o servidor planejou o próprio fim, deixou bilhetes e produziu cartas de despedida, sem identificar elementos que apontem para outra dinâmica.
No texto intitulado “Desabafo”, Cleston faz um resumo da própria trajetória pessoal e profissional. Ele menciona a condição de pai, padrasto, esposo, filho e irmão, além de citar cinco formações acadêmicas, projetos sociais e mais de 26 anos de serviço público.
Em um dos trechos, o servidor afirma ter “uma vida estável” e “uma família que me ama”. Na sequência, escreve que tinha “um bom ambiente de trabalho” e que fazia o que gostava, com “ótimos colegas de trabalho”.
Cleston era servidor efetivo da SES-MT e ocupava o cargo de coordenador de Assistência Técnica e Suporte a Usuários de Tecnologia da Informação, com salário bruto de R$ 24,7 mil por mês. Ele morreu em 29 de março, e no dia seguinte a secretaria divulgou nota de pesar destacando mais de 21 anos de serviços prestados à pasta.
Reportagem produzida pelo Bastidor MT com base em informações publicamente divulgadas pela fonte original.
O caso mostra como informações sem checagem podem contaminar o debate político e gerar interpretações equivocadas sobre um tema sensível. Quando uma morte é usada para sustentar uma tese sobre gestão pública, a responsabilidade com os fatos precisa ser ainda maior. Para a CPI, isso reforça a necessidade de distinguir evidência concreta de relato anônimo antes de ampliar suspeitas. Em investigações que tratam de saúde pública, a credibilidade da apuração é tão importante quanto o conteúdo apurado.

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