Tornozeleira e SMS: a solução high-tech que vai acabar com a violência (dizem eles)

Por Paulo Coelho

Ah, que maravilha! O governador Otaviano Pivetta, com a pompa de quem acaba de inventar a roda, sancionou a Lei nº 13.364. Agora, as mulheres protegidas por medidas judiciais em Mato Grosso vão receber um alertinha carinhoso no celular toda vez que o agressor com tornozeleira eletrônica resolver dar uma voltinha perto delas. Menos de um quilômetro? Bip bip, SMS na tela e a cavalaria (teoricamente) a caminho. Tudo publicado em edição extra do Diário Oficial, porque o momento era histórico demais para esperar a edição normal.
Que avanço civilizatório! Que tecnologia salvadora! Estamos praticamente no futuro, meus amigos. Depois de tantos anos de violência doméstica sendo tratada com papel, caneta e lentidão judicial, finalmente a solução: um gadget no tornozelo e um SMS. Porque, claro, o que faltava era justamente um aplicativo. O agressor violento, que até ontem ignorava boletim de ocorrência, medida protetiva e ordem judicial, agora vai tremer diante de uma notificaçãozinha no celular. Imagina a cena: “Nossa, o SMS chegou, melhor eu voltar pro barraco”.
Enquanto isso, no mundo real de Mato Grosso, o sinal some no interior, a central de monitoramento vive em overload, o juiz demora, a viatura demora mais ainda e o criminoso costuma descobrir jeitinhos criativos para driblar tornozeleira, quando não arranca o aparelho e segue a vida normalmente. Mas tudo bem. Vamos fingir que o problema era falta de modernidade.
É sempre a mesma farsa: criam uma lei bonitinha, batem foto, soltam release e seguem como se tivessem resolvido a chaga. A violência contra a mulher não é falta de tecnologia. É falta de cadeia, falta de punição rápida, falta de autoridade e, acima de tudo, falta de coragem para tratar o assunto com a seriedade que ele exige, em vez de ficar maquiando com panaceias eletrônicas.
Quantos SMS não lidos, quantas tornozeleiras burladas e quantas tragédias anunciadas vamos precisar acumular até admitir que gadget não substitui colhão político e Justiça que funciona de verdade?

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